Antifeminismos nas redes sociais: discursos, estratégias e disputas em torno do gênero

O CRIMPOL investiga como os discursos antifeministas se constroem e circulam nas redes sociais, quais pautas feministas procuram deslegitimar e que efeitos produzem nas disputas contemporâneas por gênero, direitos, autonomia e igualdade.

ANTIFEMINISTASREDES SOCIAISFEMINISMO

Lisdeili Nobre

9/20/20264 min read

Antifeminismos nas redes sociais: discursos, estratégias e disputas em torno do gênero

As redes sociais ampliaram as lentes pelas quais a sociedade observa, interpreta e disputa os sentidos atribuídos ao gênero. Se, por um lado, o ambiente digital possibilitou maior circulação das discussões sobre desigualdades, papéis sociais, violência de gênero, autonomia e direitos das mulheres, também se tornou espaço privilegiado para a organização de discursos de resistência às transformações produzidas pelas lutas feministas. Como já demonstrava a pesquisa Vozes antifeministas nas redes sociais, a internet pode simultaneamente fortalecer a circulação das pautas feministas e oferecer espaço para discursos que as contestam, simplificam ou deslegitimam.

O feminismo, em suas diferentes correntes e experiências históricas, colocou em questão uma estrutura social que durante séculos apresentou como naturais posições profundamente desiguais entre homens e mulheres. Ao problematizar a divisão sexual dos papéis sociais, a submissão feminina, a distribuição desigual do poder e a exclusão das mulheres dos espaços de decisão, os movimentos feministas contribuíram para deslocar as mulheres de uma posição historicamente marcada pela subordinação para uma condição de sujeitos de direitos, reivindicando autonomia, liberdade, igualdade e participação ativa na formulação das políticas públicas que interferem diretamente em suas vidas.

Entretanto, quando estruturas historicamente consolidadas são tensionadas, também emergem movimentos de reação. As conquistas feministas não produziram apenas transformações sociais: produziram igualmente resistências, disputas e tentativas de restauração de concepções tradicionais acerca das relações entre homens e mulheres. É nesse campo de tensão que o antifeminismo contemporâneo precisa ser compreendido. Não apenas como simples discordância em relação ao feminismo, mas como um fenômeno discursivo que disputa sentidos sobre gênero, família, sexualidade, violência, direitos, igualdade e poder.

A pesquisa realizada em 2018 já identificava, nos espaços virtuais antifeministas analisados, estratégias de banalização e deslegitimação do feminismo, naturalização das diferenças entre homens e mulheres, argumentos de natureza moral e religiosa, contestação das políticas específicas de proteção às mulheres e utilização de estatísticas sobre violência para sustentar contraposições às pautas feministas. Também encontrou discursos que apresentavam os homens como vítimas das transformações reivindicadas pelo feminismo e representavam feministas de maneira depreciativa.

Quase uma década depois, contudo, é necessário voltar às redes e perguntar o que mudou. O ecossistema digital se transformou, novas plataformas adquiriram centralidade, os mecanismos de circulação e recomendação de conteúdos foram intensificados e novas linguagens passaram a mediar as disputas sociais. Nesse cenário, interessa ao CRIMPOL compreender não somente o que dizem os discursos antifeministas, mas quem fala, de onde fala, contra o que fala, como constrói seus argumentos e quais efeitos de sentido procura produzir.

É justamente nesse ponto que se inicia a pesquisa do CRIMPOL – Pesquisa, Criminologia Feminista e Gênero, ciclo 2026–2027.

Nossa investigação parte de algumas inquietações fundamentais: de quem partem hoje os discursos antifeministas nas redes sociais? Quais são suas principais frentes de argumentação? Quais pautas feministas são escolhidas como alvos prioritários? Quais estratégias discursivas são utilizadas para produzir legitimidade e efeitos de verdade? Por que determinados temas — violência contra a mulher, feminicídio, família, sexualidade, maternidade, igualdade, políticas de gênero — tornam-se territórios privilegiados dessas disputas? E quais podem ser as consequências sociais e políticas da circulação e da normalização desses discursos?

Não pretendemos partir de categorias fechadas que antecipem aquilo que o corpus deverá revelar. Entretanto, estudos anteriores e uma aproximação inicial com o fenômeno permitem estabelecer categorias sensibilizadoras que orientarão o olhar das pesquisadoras e dos pesquisadores: a construção da vitimização masculina; a representação do feminismo como ameaça; a naturalização das diferenças de gênero; a deslegitimação da mulher e da feminista; a apropriação de estatísticas, notícias e discursos científicos para produzir efeitos de verdade; e o disciplinamento moral e sexual das mulheres. Essas categorias poderão ser confirmadas, reformuladas, subdivididas ou mesmo abandonadas à medida que o corpus revelar seus próprios movimentos discursivos.

Nosso interesse, portanto, não está apenas em catalogar manifestações contrárias ao feminismo. Queremos compreender como o antifeminismo contemporâneo produz sentidos. Queremos observar os deslocamentos pelos quais desigualdades podem ser apresentadas como diferenças naturais; privilégios, como direitos ameaçados; políticas de proteção, como favorecimentos indevidos; reivindicações por igualdade, como excessos; e transformações nas relações de gênero, como ameaças à família, à moral ou à própria ordem social.

Se as redes sociais ampliaram as possibilidades de questionar as estruturas tradicionais de gênero, elas também ampliaram as possibilidades de reação a esses questionamentos. É precisamente nessa arena de disputas que o CRIMPOL ingressa neste novo ciclo de pesquisa.

Não partimos apenas da pergunta sobre quem é contra o feminismo. Partimos de uma questão mais profunda: como se constrói, circula e se legitima o discurso antifeminista contemporâneo — e o que ele nos revela sobre as disputas de gênero e de poder na sociedade brasileira?

CRIMPOL – Pesquisa, Criminologia Feminista e Gênero
Pesquisa 2026–2027

FRANÇA, Matheus Costa. Vozes antifeministas nas redes sociais: uma análise de conteúdo. 2018. Relatório final de pesquisa de Iniciação Científica — Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), Brasília, 2018.